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September 29 VetoresTexto feito sob provocação de Felipe Tarquínio
Tudo começou em meados de 2005 como uma brincadeira com uma ferramenta muito conhecida do Corel Draw, o corel-trace, que basicamente transforma bitmaps em desenhos vetorizados. O resultado era semelhante a de uma reprodução xerográfica, onde eu intervinha com a aplicação de cores (geralmente primárias) e padrões geométricos derivados de impressões em offset. Meu trabalho dialogava bastante com o pop art, entretanto passou a alimentar-se de outras fontes também. Trabalhar com fotografias era um dos princípios do trabalho, entretanto não era qualquer tipo de fotografia. Poderiam ser amadoras, entretanto deveriam ter algo que me inquietasse. Misticismo, mistério, energia sexual, ambiguidade, em suma, deveria haver "personagens" latentes na fotografia, de forma que o vetor expressasse mais claramente esse persona, através de um vocabulário retirado da cultura pop, que irei expor mais a seguir. O contato com o trabalho da fotógrafa Cindy Sherman catalisou uma série de procedimentos desse processo criativo. A idéia pós-moderna de uma identidade móvel, catalogada por elementos oferecidos pela cultura de massa, agregou-se mais claramente na criação dos vetores.
Alguns artistas foram fundamentais na formação dessa linguagem. Roy Lichtenstein foi uma das primeiras inspirações, juntamente com Andy Warhol. A utilização de cores chapadas, geralmente primárias, o uso de padrões de impressão em pontilhado, são características que estiveram incorporadas desde início. Por ter sido leitor de quadrinhos desde a infância, muita coisa migrou também desse universo. Após algum tempo a ferramenta corel-trace havia esgotado para mim as possibilidades de criação, bem como o pop art, e fiquei algum tempo sem fazer vetores.
Em meados de 2005 já estava bem clara a utilização cada vez mais constante de elementos da década de 80, seja na música eletrônica, como na cultura jovem em geral. Os sons passam a incorporar sintetizadores e teclados do período, cabelos, roupas e atitudes passam a ter como referência a década de 80. O Electro Clash sintetizou um pouco de tudo isso. Após esse período de latência, con a morte decretada do Electro Clash, em meados de 2008 passo a ter um contato vivido com a outro movimento também baseado nesse vocabulário 80’s. O New Rave pousa em terras natalenses, tendo como importante elemento aglutinador a festa Lo Que Sea, cujas primeiras edições aconteceram no Nalva Café Salão. Óculos Way Farer, lenços estampados, shorts de corrida, cores fluorencentes, padrões gemétricos, piso de ladrilho hidráulico, desenhos vintage e toda uma série de revivals, em um ambiente leve e despretensioso, foram imediatamente incorporados ao imaginário visual de todos que estavam presentes, inclusive eu.
O surgimento da Lo Que Sea favoreceu uma série de encontros, fraternais, intelectuais e passionais. Surge então o coletivo multimídia ap. 101, que passa a promover a festa PUM!, mais identificada com a música eletrônica do que com o rock, mas também com referências muito fortes da década de 80 e início do 90. O coletivo passou a ser um laboratório de mentes criativas, onde produz-se coisas bastante interessantes. Os ângulos inusitados presentes nos registros fotográficos de Alex, aliados à interpretação freak-fashionista do modelo Felipe Tarquínio, mais o figurino e a maquiagem de Alysson, dentre tantos outros que contribuíram, forneceram a inspiração necessária para o retorno ao Vetor.
Entretanto, outras referências haviam sido incorporadas nesse período de latência. O traço leve e arrojado dos artistas do movimento Art Noveau (também da virada do século) já haviam me conquistado, de maneira que já não era possível fazer vetores através do corel-trace. Começo a utilizar então a ferramenta bezier e a incorporar soluções de sombra e luz, que utilizava quando fazia desenho à grafite. A escala cromática dos desenhos também sofre importante mudança. Passo a utilizar somente cores provenientes de games de 8 bits da década de 80, que dialogavam bem com o tons fluorescentes do movimento new rave. A cultura visual da década de 80 e todos seus clichês, passam a fazer parte do vocabulário dos vetores. Grades tridimensionais, persianas, xadrez, pixels e degradês são incorporados nos desenhos.
Paralelamente passo a realizar “ensaios” de sombra e luz em fotografias de minha autoria de homens do povo em momentos de trabalho ou de descontração. A proposta desse trabalho, apesar de ser bastante diferente do anterior, acaba por fornecer novas soluções para os outros vetores, ampliando bastante as possibilidades de casamento entre as duas propostas.
Os personagens que retrato geralmente concentram toda sua energia vital em um único aspecto – pode ser um objeto, um gesto, uma parte do corpo, uma vestimenta. Os outros, que considero desnecessários, são suprimidos de forma a potencializar esse aspecto. Os padrões de preenchimento da pele, das roupas e dos backgrounds, bem como as cores, possuem carga simbólica e refletem como se vê o retratado e sua inserção na minha convivência.
O diálogo que venho mantendo com a produção do coletivo tem sido bastante motivador. A possibilidade de explorar os vetores (que são bastante flexíveis e preservam intacta sua qualidade em ampliações ou reduções) em diversos tipos de suporte – entre eles, roupas, adesivos em grande formato e animações em flash – é um próximo passo do trabalho, que atualmente encontra-se em meio digital. |
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